Mesmo com adversidades, mulheres conquistam espaço no universo nerd

Mesmo com adversidades, mulheres conquistam espaço no universo nerd

 

Autoras de livros, desenhistas e gamers ainda lidam com preconceito, mas vão vencendo esses desafios com talento e competência

Diariamente, as mulheres lutam para conquistar seu espaço e a igualdade. E no mundo da Literatura, dos Quadrinhos e dos Gamers, muito populares no mundo nerd, isso não é diferente. Apesar das dificuldades e preconceitos, as mulheres estão cada vez mais inseridas no cenário nacional, produzindo conteúdos de qualidade e destacando-se pelos seus trabalhos.

A jornada, porém, ainda é longa, pois o mundo nerd ainda é dominado pelos homens, que, muitas vezes, ainda carregam preconceitos velados sobre autoras, desenhistas e gamers mulheres.

Segundo pesquisa Geek Power, realizada em 2019 pelo instituto MindMiners, em parceria com a Omelete Company, 63% do setor é composto por homens, tornando a inserção das mulheres um desafio.

Mas isso não as está impedindo de conquistar esses espaços

Arte feita pelo artista J.P Perez, em homenagem a atriz Gal Gadot
Crédito: Reprodução Internet

Na Literatura

Dentre as três categorias (Literatura, Quadrinhos e Gamers), o segmento em que há maior desigualdade é o literário. Segundo uma pesquisa realizada coordenada pela professora titular de literatura brasileira, Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília, cerca de 70% dos autores são homens. Essa realidade vem se repetindo nos últimos 40 anos.

Quando entramos em nichos específicos da literatura, como ficção científica, terror e fantasia, essa porcentagem ainda é maior, apesar das mulheres terem sido as principais protagonistas desses gêneros no passado.

A participação feminina sempre foi presente na literatura. A ficção cientifica, por exemplo, é atribuída a Mery Shelley, autora de Frankenstein. O terror, também, é um gênero feminino”, comenta Claudia Fusco, pesquisadora de Artes Fantásticas. “Esses estilos nasceram nos séculos XVIII e XIX, conduzido e feito por mulheres, sendo sempre numerosos e importantes”, explica.

Pesquisadora Cláudia Fusco
Crédito: Divulgação

Contudo, Claudia destaca que, apesar desse protagonismo, a participação da mulher nesses gêneros foi diminuindo por conta do preconceito, que definiu que as mulheres deveriam escrevem para nichos diferentes. “Herdamos um preconceito de que a mulher é inferior em alguns campos, escrevendo de foma muito ‘nichada’, escrevendo apenas para um determinado público, enquanto o homem escreve para todo mundo”.

Essa visão é compartilhada pela escritora Fernanda França, autora de inúmeros livros. “Existe um preconceito, que, às vezes, não é escancarado, mas ele existe. Por exemplo, se uma mulher escrever sobre a história dela, um drama ou um romance, isso pode virar literatura de ‘mulherzinha’, enquanto que se fosse um homem escrevendo, ele seria considerado sensível ou que soube colocar os sentimentos nas páginas”, contrapõe a autora.

Autora Fernanda França
Crédito: Divulgação

O público masculino ainda tem uma reserva muito grande, como se alguns títulos ou não foram feitos para eles ou foram feitos somente para eles. Mas livros são para todos! É para todo mundo ler, independente de quem é autor” destaca Fernanda.

O mercado editorial acaba sendo influenciado por essa realidade e por esses preconceitos. Até mesmo grandes autoras precisaram passar por adaptações para terem melhor aceitação, como, por exemplo, J. K. Rowling, criadora de “Harry Potter”, que abreviou seu nome para não ser facilmente associada a uma mulher. Isso quando a autora não usa um pseudônimo masculino.

A autora Roberta Spinder
Crédito: Reprodução internet

Contudo, ótimos exemplos surgem no mercado, servindo como motivação para as mulheres, como, por exemplo, a gaúcha Karen Soarele, que já escreveu diversos livros de fantasia medieval, e a paraense Roberta Spindler, autora da ficção “Heróis de Novigrath”.

“Vejo cada vez mais mulheres escrevendo literatura fantástica e sendo publicadas. Isso é um cenário bem positivo!”, comemora Roberta. “Estamos vendo uma melhora em relação a aceitação dos trabalhos das mulheres a cada ano, então é importante que quem quiser virar uma escritora leia bastante, mantenha uma boa rotina de escrita e não tenha pressa, pois é importante conhecer o funcionamento do mercado antes”, pontua.

Em outubro, haverá a 26ª Bienal Internacional do Livro, em São Paulo, sendo uma grande oportunidade para conhecer mais autoras e suas obras.

Nos quadrinhos         

Enquanto na Literatura, a participação das mulheres continua na casa dos 30%, o mesmo não pode ser dito no mundo dos quadrinhos. Nos últimos anos, a presença de desenhistas e roteiristas mulheres tem aumentado.

Para se ter uma ideia, o número de mesas de mulheres no Artist’s Alley, setor destinado a artistas durante o Comic Com Experience (CCXP) aumentou cerca de 50%, saltando de 107 artistas em 2017, para 161 em 2019. Apesar do aumento, as mulheres representaram cerca de 32% dos 500 artistas presentes no ano passado.

A artista Fefê Torquato
Crédito: Reprodução Internet

“Eu posso dizer que a presença das mulheres, incluindo as cis/trans, é massiva na criação e produção de quadrinhos independentes, assim como de conteúdo e jornalismo do meio”, destaca Fefê Torquato, autora da graphic novel da MSP “Respeito”. “Agora, essa mesma presença nos prêmios, painéis de temas variados, credenciais para eventos, quadrinhos publicados por editoras, que não tenham como tema a mulher ou o que ela representa, isso deixa a desejar”, alerta.

Segundo Fefê, assim como na literatura, há homens que se sentem ofendidos ou que não aceitam HQs protagonizadas ou produzidas por mulheres. “Ainda acham que eu faço quadrinho para mulher. E a graphic da Tina confirmou isso na cabeça dessas pessoas, que não percebem que uma mulher não precisa ler a HQ para saber pelo que a Tina vai passar no seu primeiro emprego. Quem tem muito a descobrir e aprender lendo essa história é o público masculino padrão”, reforça.

Arista Ana Cardoso
Crédito: Divulgação

A artista Ana Cardoso destaca que as artistas femininas estão inseridas em diversos gêneros, como ficção cientifica, terror e fantasia, inclusive ganhando prêmios, como a HQ “Gibi de Menininha”, vencedora do Prêmio HQ Mix, na categoria “Publicação Mix”.

As mulheres tem produzido muitos materiais sobre fantasia, terror e quadrinhos eróticos”, destaca Ana. “Eu poderia dizer, sim, que no universo de super-heróis tem uma quantidade menor de mulheres, justamente por ser um nicho muito machista e com uma diversidade muito voltada ao herói”, comenta.

Ana explica que essa pouca participação se deve às características desse estilo, que segue modelos norte-americanos. “Dentro do mercado dos EUA, temos mulheres pouco complexas, com baixa profundida e hiper-sensualizadas”, comenta.

Por conta disso, na contra-mão dessa realidade, o mangá acaba contribuindo muito para a entrada de mulheres no mundo dos quadrinhos. “No estilo mangá, as artistas podem entrar em diversos gêneros, como fantasia, romance, aventura, terror, dentre outros”, contextualiza.

Um ótimo exemplo disso é a desenhista Érica Awano, uma das mais experientes do cenário brasileiro, com passagem pela na saga “Holy Avanger” e, mais recentemente, na HQ “Paladina”, da Jambô Editora.

Também merece destaque o Universo Guará, que traz personagens brasileiros, com artistas nacionais. Entre os títulos, temos a HQ “Pérola”, que conta com a roteirista Kika Hamaoui na equipe.

Tanto Fefê quanto Ana concordam que a Internet e o protagonismo de outras mulheres servem muito para motivar novas artistas, que precisam se profissionalizar, fazer bons cursos e, claro, expor seus materiais sem medo.

Gamers

Em meio a esses segmentos, há um em que as mulheres já estão, praticamente, em pé de igualdade: o dos games.

Segundo a Pesquisa Game Brasil (PGB), realizada em 2018, as mulheres representam 75,5% do setor. Contudo, Nanda Padilha, a Guria Geek, acredita que esse número está equivocado. “Na prática, essas pesquisas incluem pessoas que jogam diversos games, incluindo jogos no celular, como o Candy Crush”, explica a Guria. “No nosso cotidiano, que gira em torno dos jogos online, creio que seja uns 30% de mulheres”, destaca.

Nanda Padinha, a Guria Geek
Crédito: Divulgação

E é nesse universo online em que ocorrem as demonstrações de preconceito. “O que ouvimos é por causa somente do machismo, não mais pela habilidade nos jogos, como havia antigamente. Durante as minhas lives, recebo muito a frase ‘E a pia, tá como?‘”, comenta.

Quem também passou por essa situação é a gamer Cris Nikolaus, que atualmente também apresenta o programa SBT Games, voltado para o mundo dos jogos. “Já passei por situações em que fui desafiada a provar que eu jogava de verdade ou até mesmo provar que eu jogava bem”, relembra.

A gamer Cris Nikolaus
Crédito: Reprodução Internet

A influenciadora e apresentadora conta que já ficou incomodada por isso. “Antigamente, isso mexia bastante comigo, hoje não esquento mais com isso”. E completa: “O preconceito e o machismo ainda existem, são numa escala bem menor, mas existem. Para que estas dificuldades diminuam, o respeito é fundamental”.

E, segundo as gamers, esse respeito se manifesta ao entender que todos têm espaço para falar do que gostam.

Independentemente se é autora, desenhista ou gamer, todas concordam em um aspecto: nunca desistir, serem persistentes e defenderem seus pontos de vistas.

E, isso, as mulheres mostram todos os dias que têm de sobra…

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